La vie est belle !
(de l'étonnement d'être vivante)

Miniconto



A vida em palavras

“Escreve-se sobre o que não dá certo”, escreveu Carlos Heitor Cony ao apresentar Fio, primeiro livro de poesias da jornalista Mariza Tavares, minha melhor amiga nos tempos de faculdade. A julgar pelos escritos da maior parte das mulheres escritoras, ele deve ter razão, pois nós temos uma tendência a usar a escritura como um expurgo, uma catarse. Ao contrário dos homens, que escrevem para divertir e se divertir. Assim é que não poucas autoras admitem que suas escrivinhações são algo autobiográficas. Um tanto de vida real, um tanto de criação literária : nem tudo o que está relatado aconteceu ao pé da letra ou na seqüência da narrativa.

Pois eu quero quebrar este paradigma. Hoje escrevo sobre o que está dando certo, ainda que eu seja obrigada a confessar que tenha medo.

Eu precisava falar com ele, e esperei pacientemente a chegada do dia do seu aniversário. Não o via, nem mesmo pensava nele, há dois anos. Naquela época, foi um coup de foudre, amor à primeira vista. Mas ele estava enrolado demais com problemas financeiros e, embora também se sentisse atraído por mim, decidiu que não era justo me embarcar no seu pesadelo. E saiu à francesa.

Em 15 de janeiro, quando anunciei meu nome ao telefone, levei um susto com o entusiasmo da sua acolhida. As perguntas vinham aos borbotões, sem me dar tempo de responder a uma sequer. Queria saber em poucos minutos tudo o que tinha me acontecido em dois anos. Ele ficou louco de alegria. Achei mais razoável marcarmos um jantar e...

... o tempo andou para trás e aquele sorriso que tinha me fascinado exerceu com força total a mesma magia. Quando, entre uma garfada e outra eu o beijei, ele disse que se sentia como se tivesse voltado a ter 20 anos.  Depois, é como diz Francis Cabrel: “c´est une histoire d´enfants, une histoire ordinaire; on est tout simplement un samedi soir sur la Terre”.

As surpresas se sucedem. Na primeira vez que foi jantar na minha casa, trouxe-me um enorme buquê de lírios, minha flor favorita. Fiz uma foto em que sou acariciada pela flor. Um sábado em que ele estava com o filho, eu fui com amigas à Mesquita. Ele telefona dizendo que está passando para me buscar, para grande alvoroço meu e das copines, que somos obrigadas a engolir o nosso chá (ah, elas bem que estavam curiosas para conhecê-lo). Durante a semana, entre um compromisso e outro, ele me telefona para dizer "je pense à toi, ma pouce". Ele se levanta antes de mim e sai de mansinho. Na volta, me acorda com o seu sorriso deslumbrante e croissants quentinhos para o café da manhã de domingo.

Abestalhada, eu fixo o olhar no rosto dele sem dizer palavra. Ele me pergunta no que estou pensando, mas eu sou incapaz de lhe confessar que estou orando : “Meu Deus, me ensina a aceitar a felicidade”.



Escrito por Teresa Abreu às 04h44
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Finalmente, o último capítulo

 

Ele telefona e esbraveja mil insultos no meu ouvido. Sem desligar, pouso o telefone ao lado do teclado e lhe escrevo: “Eu me dizia, e dizia também às minhas amigas, que era impossível que uma relação profunda como foi a nossa desaparecesse para sempre, como se não tivesse significado nada. Você foi o homem com quem eu tive a maior intimidade física e emocional. A ninguém eu confiei tanto os meus segredos e as minhas feridas mais íntimas; nem mesmo a meu ex-marido ou meus filhos. A ninguém eu me dei com tanto abandono.

 

Por isso, quando a nossa relação chegou ao fim, eu não pude suportar que você fosse embora de vez, carregando consigo uma parte de mim, profunda demais. É lógico que eu compreendi que para você eu não tive de modo algum a mesma importância. Ao contrário. Eu não passei de um instrumento a serviço dos seus projetos pessoais. Você quis se aproveitar de todos os benefícios que poderiam te conferir o meu status. Você atravessou o oceano para conhecer o meu país, minhas amigas, foi à casa da minha mãe. Quanto a mim, eu nunca conheci ninguém das suas relações. Eu percebia tudo, eu suportava tudo e, no entanto, eu não te neguei nada, porque simplesmente eu não podia viver sem você.

 

Agora, que você encontrou outros meios de realizar seus projetos, você procura se livrar de mim como quem se desembaraça de um instrumento descartável. Quando tento lhe falar, você não me ouve, e se volta contra mim, cego e surdo a qualquer argumento contrário ao seu mesquinho ponto de vista.” 

 

Ele telefona novamente e deixa um recado, que ela não tem coragem nem vontade de ouvir. Ela fecha a porta do seu quarto e se deita na penumbra. Nas mãos crispadas, a caixa de comprimidos que a ajudarão a esquecer. 

 

A torre Eiffel cintila.



Escrito por Teresa Abreu às 16h23
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Meu perfil
Moro na França, onde trabalho para o Governo brasileiro. Gosto de livros, arte e cultura. Sou jornalista, escritora, fotógrafa e especialista em Relações Internacionais

 

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