A vida em palavras
“Escreve-se sobre o que não dá certo”, escreveu Carlos Heitor Cony ao apresentar Fio, primeiro livro de poesias da jornalista Mariza Tavares, minha melhor amiga nos tempos de faculdade. A julgar pelos escritos da maior parte das mulheres escritoras, ele deve ter razão, pois nós temos uma tendência a usar a escritura como um expurgo, uma catarse. Ao contrário dos homens, que escrevem para divertir e se divertir. Assim é que não poucas autoras admitem que suas escrivinhações são algo autobiográficas. Um tanto de vida real, um tanto de criação literária : nem tudo o que está relatado aconteceu ao pé da letra ou na seqüência da narrativa. As surpresas se sucedem. Na primeira vez que foi jantar na minha casa, trouxe-me um enorme buquê de lírios, minha flor favorita. Fiz uma foto em que sou acariciada pela flor. Um sábado em que ele estava com o filho, eu fui com amigas à Mesquita. Ele telefona dizendo que está passando para me buscar, para grande alvoroço meu e das copines, que somos obrigadas a engolir o nosso chá (ah, elas bem que estavam curiosas para conhecê-lo). Durante a semana, entre um compromisso e outro, ele me telefona para dizer "je pense à toi, ma pouce". Ele se levanta antes de mim e sai de mansinho. Na volta, me acorda com o seu sorriso deslumbrante e croissants quentinhos para o café da manhã de domingo.
Escrito por Teresa Abreu às 04h44




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