La vie est belle !
(de l'étonnement d'être vivante)

Miniconto



 
 

Sua máxima culpa

Faz tempo que não passo um domingo sozinha, já tinha até esquecido como é. Então, depois que você partiu, eu coloquei no DVD player aquele filme que eu comprei num desses domingos em que a gente foi bater perna em Montparnasse. Uma estória chatinha com Julia Roberts, do gênero “Sociedade dos poetas mortos” para meninas. Durante o filme, ouvi a descarga do sanitário do vizinho. Num lapso de memória, achei que você tinha ido ao toilette e fiquei esperando que voltasse. Depois de muito esperar, compreendi que era mais sensato continuar vendo o filme.

Quando você me telefonou para dizer que tinha feito boa viagem, eu tinha acabado de vestir o mantô para sair. Não te falei nada, mas eu fui à Montparnasse fazer algo que não fazia há muito, mas muito tempo mesmo: fui comprar uma garrafa de vinho. Comprei também uma revista de moda e uma bandeja de iogurte.

Disposta a me embriagar, decidi que meu jantar seria queijos e vinhos. Aí fui ficando bêbada, mas não ao ponto de esquecer de tomar o comprimido que promete ventre plat. Sentindo-me protegida pela pílula, avancei na caixa de Ferrero Rocher. Um. Dois. Três. Meu estômago começa a inchar e eu estou toda redonda e até um pouco nauseada, mas não consigo parar. E olha que coloquei a caixa de chocolate lá em cima da despensa da cozinha, de modo que tenho que subir no banquinho pra alcançá-la. Eu não desço a caixa porque toda vez digo que vai ser o último.

Sentada, pareço um pachá: um barrigão só. Amanhã, quando você chegar, eu vou estar com a cara inchada, porque é óbvio que não vou conseguir dormir, bêbada e sozinha. Eu não vou te dizer nada. Mas quando a gente brigar, daqui há uns 50 anos, eu vou jogar na sua cara que sou insone e escondo caixas de chocolate e garrafas de vinho debaixo da cama porque você me deixou sozinha num domingo de inverno.



Escrito por Teresa Abreu às 21h26
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Terezinha de Jesus

A vida é feita de escolhas. Nós, humanos, temos uma visão um tanto limitada de nossa mísera existência, que se resume ao conhecimento, muitas vezes inconsciente, do passado e do presente. O futuro a Deus pertence, diz a sábia voz do povo.  Como, nos dias que correm,  a maior parte dos mortais prescinde da presciência de Deus, o futuro não passa de um enorme ponto de interrogação.

No entanto, qualquer que seja  a orientação religiosa ou existencial do mais comum dos mortais, fazer escolhas é preciso, porque, no fim das contas, a fila tem que andar. E eis-nos diante de um problema difícil: o de decidir, aqui e agora, o que queremos para o resto de nossas vidas, se é que esta expressão ainda tem lugar nos dias de hoje, em que tudo é relativo.

Relativo demais.

Terezinha de Jesus foi ao chão e três cavalheiros prontificaram-se a acudi-la. Com o primeiro teve uma forte identificação intelectual. O diálogo entre eles era como uma partida de esgrima:  dinâmico, afinado, elegante. Cérebros gêmeos.

O segundo era o seu oásis. Qualquer que fosse o deserto que Terezinha tivesse de enfrentar, as suas sábias palavras e os seus conselhos lúcidos lhe apaziguavam as inquietudes e lhe renovavam as forças para as difíceis travessias vindouras.

O terceiro lhe proporcionava aquela segurança que só o confiante abandono da infância pode ensejar. Ele vinha de longe, dos dias de sua juventude, e a constância de seus sentimentos dava a Terezinha a certeza de que ao seu lado ela estava em casa.

Mas foi a um quarto cavalheiro que a Tereza deu a mão. Ele não lhe garantiu nada. Nem precisava, porque ela não o escolheu para satisfazer o seu intelecto, ou a sua fragilidade, e menos ainda a sua memória. Ele falou-lhe às entranhas...

... e ela não teve escolha.



Escrito por Teresa Abreu às 22h21
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Ratos no inconsciente

Muitas coisas lhe povoam o pensamento. Uma certa paranóia toma-lhe a mente de assalto. E se estivesse rodeado de olheiros, sanguessugas, ratos de porão que espreitam para comer-lhe as carnes?

 

Como discernir o olhar prolongado daquele homem que sem abrir a boca diz-lhe assim mesmo mil palavras impronunciáveis? Como interpretar o andar da magricela empertigada, com boca de papagaio e olhos de águia, mau humor (e mal de amor) à flor da pele sobre os ossos? E as palavras que lhe são dirigidas, educadas, geladas, comedidas a não mais poder...

 

Vai pro mar, vai pro vento, vai pro week-end de morfedose. Que viver está muito complicado e não se encontra explicação pra tudo. Aliás, não há explicação pra nada, se é que alguma coisa é explicável.

 

Resta-lhe a intuição de que vão lhe arrancar o couro, as vísceras, a alma.



Escrito por Teresa Abreu às 14h38
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A vida em palavras

“Escreve-se sobre o que não dá certo”, escreveu Carlos Heitor Cony ao apresentar Fio, primeiro livro de poesias da jornalista Mariza Tavares, minha melhor amiga nos tempos de faculdade. A julgar pelos escritos da maior parte das mulheres escritoras, ele deve ter razão, pois nós temos uma tendência a usar a escritura como um expurgo, uma catarse. Ao contrário dos homens, que escrevem para divertir e se divertir. Assim é que não poucas autoras admitem que suas escrivinhações são algo autobiográficas. Um tanto de vida real, um tanto de criação literária : nem tudo o que está relatado aconteceu ao pé da letra ou na seqüência da narrativa.

Pois eu quero quebrar este paradigma. Hoje escrevo sobre o que está dando certo, ainda que eu seja obrigada a confessar que tenha medo.

Eu precisava falar com ele, e esperei pacientemente a chegada do dia do seu aniversário. Não o via, nem mesmo pensava nele, há dois anos. Naquela época, foi um coup de foudre, amor à primeira vista. Mas ele estava enrolado demais com problemas financeiros e, embora também se sentisse atraído por mim, decidiu que não era justo me embarcar no seu pesadelo. E saiu à francesa.

Em 15 de janeiro, quando anunciei meu nome ao telefone, levei um susto com o entusiasmo da sua acolhida. As perguntas vinham aos borbotões, sem me dar tempo de responder a uma sequer. Queria saber em poucos minutos tudo o que tinha me acontecido em dois anos. Ele ficou louco de alegria. Achei mais razoável marcarmos um jantar e...

... o tempo andou para trás e aquele sorriso que tinha me fascinado exerceu com força total a mesma magia. Quando, entre uma garfada e outra eu o beijei, ele disse que se sentia como se tivesse voltado a ter 20 anos.  Depois, é como diz Francis Cabrel: “c´est une histoire d´enfants, une histoire ordinaire; on est tout simplement un samedi soir sur la Terre”.

As surpresas se sucedem. Na primeira vez que foi jantar na minha casa, trouxe-me um enorme buquê de lírios, minha flor favorita. Fiz uma foto em que sou acariciada pela flor. Um sábado em que ele estava com o filho, eu fui com amigas à Mesquita. Ele telefona dizendo que está passando para me buscar, para grande alvoroço meu e das copines, que somos obrigadas a engolir o nosso chá (ah, elas bem que estavam curiosas para conhecê-lo). Durante a semana, entre um compromisso e outro, ele me telefona para dizer "je pense à toi, ma pouce". Ele se levanta antes de mim e sai de mansinho. Na volta, me acorda com o seu sorriso deslumbrante e croissants quentinhos para o café da manhã de domingo.

Abestalhada, eu fixo o olhar no rosto dele sem dizer palavra. Ele me pergunta no que estou pensando, mas eu sou incapaz de lhe confessar que estou orando : “Meu Deus, me ensina a aceitar a felicidade”.



Escrito por Teresa Abreu às 04h44
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Finalmente, o último capítulo

 

Ele telefona e esbraveja mil insultos no meu ouvido. Sem desligar, pouso o telefone ao lado do teclado e lhe escrevo: “Eu me dizia, e dizia também às minhas amigas, que era impossível que uma relação profunda como foi a nossa desaparecesse para sempre, como se não tivesse significado nada. Você foi o homem com quem eu tive a maior intimidade física e emocional. A ninguém eu confiei tanto os meus segredos e as minhas feridas mais íntimas; nem mesmo a meu ex-marido ou meus filhos. A ninguém eu me dei com tanto abandono.

 

Por isso, quando a nossa relação chegou ao fim, eu não pude suportar que você fosse embora de vez, carregando consigo uma parte de mim, profunda demais. É lógico que eu compreendi que para você eu não tive de modo algum a mesma importância. Ao contrário. Eu não passei de um instrumento a serviço dos seus projetos pessoais. Você quis se aproveitar de todos os benefícios que poderiam te conferir o meu status. Você atravessou o oceano para conhecer o meu país, minhas amigas, foi à casa da minha mãe. Quanto a mim, eu nunca conheci ninguém das suas relações. Eu percebia tudo, eu suportava tudo e, no entanto, eu não te neguei nada, porque simplesmente eu não podia viver sem você.

 

Agora, que você encontrou outros meios de realizar seus projetos, você procura se livrar de mim como quem se desembaraça de um instrumento descartável. Quando tento lhe falar, você não me ouve, e se volta contra mim, cego e surdo a qualquer argumento contrário ao seu mesquinho ponto de vista.” 

 

Ele telefona novamente e deixa um recado, que ela não tem coragem nem vontade de ouvir. Ela fecha a porta do seu quarto e se deita na penumbra. Nas mãos crispadas, a caixa de comprimidos que a ajudarão a esquecer. 

 

A torre Eiffel cintila.



Escrito por Teresa Abreu às 16h23
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Meu perfil
Moro na França, onde trabalho para o Governo brasileiro. Gosto de livros, arte e cultura. Sou jornalista, escritora, fotógrafa e especialista em Relações Internacionais

 

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