La vie est belle !
(de l'étonnement d'être vivante)

Livros



O olhar do outro

Cheguei à última página do livro Corcovado. O marselhês Jean-Paul Delfino, amante inconteste do Brasil e do povo brasileiro, quis contar a seus conterrâneos a história da construção do Cristo Redentor. Não achando suficiente fazer um relatório histórico, ele preferiu criar um personagem que desembarca no Rio de Janeiro em 1921 e, a partir daí, conta as impressões de um francês que imerge na boemia da Lapa, nos morros do Centro, no jogo do bicho, nos rituais de Candomblé, nas rodas de samba, na Semana de Arte Moderna, na política e na economia brasileiras. E, naturalmente, nos fatos que levaram à edificação do Cristo Redentor.

 

Corcovado é o primeiro livro de uma trilogia. O autor explica que decidiu escrever sobre o Brasil porque sentia vergonha. “Vergonha de que a França não conheça melhor esse país com o qual mantém, há 500 anos, relações de uma riqueza extraordinária. Vergonha de que os franceses ainda retenham os clichês piegas e fáceis sobre o Brasil, que vêm, com ingenuidade e desprezo, como um país de samba, futebol, prostituição e violência. Vergonha mais ampla de que a Europa ainda se sinta, inconscientemente, proprietária dos países da América Latina, da África ou da Ásia. Vergonha, finalmente, de que nós ainda vejamos o Brasil pelas lentes que nos foi apresentado no Século das Luzes: um país de bons selvagens.”

 

Um livro que todo brasileiro deveria ler, pois o olhar estrangeiro e apaixonado do personagem Jean Dimare tem muito a nos esclarecer sobre a nossa maneira de vivermos a nossa brasilidade.

 

CORCOVADO (em Português) 2005

Delfino, Jean-Paul

Record

Literatura estrangeira-romances



Escrito por Teresa Abreu às 17h38
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Quem lê, viaja

O pensamento é uma das forças mais poderosas que um ser humano pode possuir. A organização do pensamento em palavras é um dom, e a coragem de exprimi-las em situações adversas é uma necessidade imperiosa nos espíritos livres. Essa semana eu tive a sorte de conhecer dois exemplares dessa espécie, por intermédio de seus livros: o húngaro Stephen Vizinczey e o chinês Dai Sijie.  Do primeiro, li Éloge des femmes mûres (literalmente, Elogio às mulheres maduras), um livro classificado como “erótico”. Não é, ou melhor, eu não acho que seja. Autobiográfico, o livro mostra a vida do autor do ponto de vista de suas aventuras sexuais. Como pano de fundo, a Hungria sob ocupação nazista, em 1944, e, em seguida, diluída no saco de gatos da União Soviética, passando pela insurreição de 1956 e fragmentos da história húngara desde os tempos do império romano. Uma aula de história, heroísmo e sensualidade.

O segundo livro, Balzac et la Petite Tailleuse chinoise (Balzac e a costureirinha chinesa), é um primor da literatura chinesa, refinada como sua porcelana, sua seda, seus ideogramas. O autor relata a estória, não sei se autobiográfica, de um adolescente que furta uma mala contendo livros de autores ocidentais, proibidos durante a revolução cultural de Mao Tsé Tung, de 1966 a 1976. Aqui também as descobertas amorosas e sexuais do jovem em “reeducação cultural” são entremeadas com fatos históricos de seu país.

Vizinczey é filósofo e vive na Inglaterra. Dai é cineasta e mora na França. Dois espíritos livres, que sobreviveram a seus respectivos totalitarismos, enfrentaram-nos, evadiram-se e encontraram meios lúdicos de denunciar a opressão, usando como recurso a memória afetiva das descobertas da juventude. Em quatro dias de leitura eu adquiri novos conhecimentos sobre a Hungria, a China, a capacidade humana para resistir, a sensibilidade masculina.

       



Escrito por Teresa Abreu às 22h18
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Moro na França, onde trabalho para o Governo brasileiro. Gosto de livros, arte e cultura. Sou jornalista, escritora, fotógrafa e especialista em Relações Internacionais

 

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