A Bretanha era a única região da França que eu ainda não conhecia. Nas férias deste ano fiz um pequeno circuito por algumas das cidades da ponta noroeste do país, reputada por suas chuvas e seus ventos violentos.
Saint-Malo orgulha-se de seu apelido de cidade corsária. Um navio corsário tinha permissão do rei da França de atacar e pilhar navios que ostentassem bandeira de países inimigos. Caso fosse capturado, um corsário era considerado prisioneiro de guerra. Ao contrário do pirata, que agia por conta própria, à margem da lei.
Saint-Malo também enviou muitos piratas pelos sete mares do mundo.
O centro histórico é cercado por uma espessa muralha que protegeu a cidade nos tempos em que as invasões se faziam por mar. Os historiadores locais se orgulham de que os ingleses nunca tenham conseguido transpor os muros de Saint-Malo, a despeito de suas inúmeras tentativas.
A guerra aérea, no entanto, não poupou a cidade, que foi bombardeada durante a segunda guerra mundial... pelos aliados. Devido a uma informação - errada - de que havia alemães escondidos no centro histórico, bombardeiros aliados destruíram parte da cidade, que depois da guerra foi reconstruída tal e qual. Na verdade, os alemães estavam escondidos no forte (foto 2), que não foi atacado.
Hoje, os ingleses invadiram a cidade - e a região - de outra maneira: são eles que alimentam o turismo e a economia da Bretanha, que não tem este nome por acaso.
Nós, brasileiros, não temos uma idéia clara do modo como os demais sul-americanos nos vêem, não sabemos o que falam de nós, a não ser quando saímos de nosso país e nos defrontamos com uma sociedade multinacional. Em Paris, aprendi que todos os sul-americanos de língua espanhola deploram ainda hoje o massacre infringido pelos brasileiros aos paraguaios na guerra do século XIX. Guerra, para nós, é algo que ou faz parte dos livros de História, ou diz respeito ao hemisfério Norte. Se a guerra nos atinge é do ponto de vista econômico, com o aumento do preço do petróleo e dos alimentos. Mas os seus efeitos estruturais - psicológicos, familiares, e mesmo urbanísticos - nós não sabemos o que é.
Minha estada na França, e mais do que isso, minha opção de não me entrincheirar nos guetos de brasileiros, mas de buscar me relacionar com os nativos do país, me levou à inevitável convivência com pessoas que carregam ainda hoje as conseqüências das guerras – não somente da segunda guerra mundial, mas também da guerra da Argélia, de 1954 a 1962. Eu ouço relatos de pessoas que passaram fome na infância, de amigos cujas mães atravessaram sozinhas o período de gravidez, e que receberam seus pais traumatizados ou mutilados, ou que nunca os receberam. E as seqüelas estão lá, diante dos meus olhos, em pessoas que me são queridas.
Toda a memória que tenho do conflito de 1939-1945 vem dos livros com ilustrações dos navios, submarinos e aviões de guerra que meu pai me mostrava, cheio de admiração pela engenhosidade humana. É, pois, com estranheza, que hoje, por exemplo, caminho por uma rua e ouço a pessoa ao meu lado dizer: “este bairro é diferente do resto da cidade, porque foi refeito, depois do bombardeio que sofreu durante a guerra”. Mas é também com respeito e admiração que percebo a reconstrução dessas vidas que, mesmo machucadas, traumatizadas, voltam o olhar para o futuro, na certeza de que sim, têm direito ao seu quinhão de felicidade. São francesas e franceses não consumistas, felizes e criativos apesar de ganharem pouco dinheiro, que fazem da arte uma forma de evasão, e cuja ambição é proteger a amizade e o amor, seus bens mais inestimáveis.
E eu me emocionei às lágrimas quando uma amiga me contou que a sua terapeuta lhe aconselhou a me guardar como um dos seus tesouros.
Um francês de 66 anos, professor de Letras aposentado, virou um sans papier em seu próprio país porque o órgão administrativo que emite e renova carteiras de identidade se recusou a aceitar sua assinatura: alguns traços representando um rosto. O senhor Jackie Laisné-Brillet, que perdeu sua carteira em abril de 2007 e está desde então sem documento de identidade, entrou na justiça para obter o direito de continuar assinando em forma de desenho, como faz há mais de 20 anos.
Ele contou que tudo começou quando um gerente de banco lhe sugeriu trocar de assinatura, porque a que ele usava era muito banal. O desenho foi aceito pelo banco, e pelo Tesouro Nacional, que nunca devolveu nenhum de seus cheques. A carinha também assina sua carteira de motorista e o documento de propriedade de seu veículo. “Quando será mesmo a minha expulsão do país?”, ironizou o senhor Laisné, que mostra, na foto abaixo, seu título de eleitor com a assinatura desenhada.
Hoje faz seis meses que eu reencontrei o homem da minha vida.
Precisava falar com ele sobre trabalho e esperei com ansiedade a chegada do seu aniversário, em 15 de janeiro, para lhe telefonar. A verdade é que ele me impactou desde nosso primeiro encontro, em outubro de 2005. Foi amor à primeira vista, e nós tivemos um rápido affaire, que não foi adiante porque ele não quis. Ele estava enfrentando problemas na empresa e, sem me consultar, decidiu que não tinha o direito de me embarcar no seu inferno. Quando ele me deixou, eu disse à minha amiga que era a pessoa certa no momento errado. Pois o momento certo finalmente chegou.No início de 2008 ele estava livre e pronto.
Anotaí
O dia em que você vier a Paris, por favor, não deixe de visitar o restaurante Nos ancêtres les Gaulois, na île Saint-Louis. Meu chéri me levou lá no sábado. Pelo valor fixo de 41 € você come (e bebe) como um ogro. A entrada é self-service e o vinho também, que você vai buscar no tonel com a sua jarra quantas vezes quiser e agüentar. E ainda tem o prato principal, os queijos, a sobremesa, o cafezinho... Depois de comer, beber e cantar (sim, tem um trovador que faz a animação, e que animação!) como um bárbaro, você fará obrigatoriamente um passeio ao longo do Sena. Imperdível.
E compre o novo CD de Carla Bruni, Comme si de rien n'était. No vídeo, a música L'amoureuse (A apaixonada).
Não sou de ler revistas que acompanham a vida das celebridades. Nunca gostei, nem mesmo quando arrumei meu primeiro estágio na revista Amiga, da Editora Bloch. Detestava fazer perguntas pessoais e, quando era obrigada a fazê-las, explicava que a redação exigia. Os artistas que eu entrevistava compreendiam.
Os franceses, que sempre demonstraram uma indiferença estóica à vida privada das pessoas, acabaram cedendo à tentação da mediatização da intimidade de seus artistas e autoridades, sendo o presidente Nicolas Sarkozy o personagem em torno de quem giram as mais continuadas fofocas, por conta de seu casamento intempestivo com a cantora e compositora Carla Bruni, três meses após seu divórcio.
Bom, tudo isso para dizer que, embora fugindo das revistas e reportagens mexeriqueiras, eu não resisti e digitei o nome dela no Google.
Grata surpresa. Descobri uma artista talentosa e sensível, um ser humanista e delicado, uma mulher assumidamente frágil, que parece ter identificado no presidente turbinado o seu ideal de homem.
Abaixo, vídeo da música Quelqu'un m'a dit (Alguém me disse), título de seu primeiro CD, em que a bela italiana assina a autoria de letra e melodia da quase totalidade das canções.
O próximo disco será lançado em 21 de julho, mas Carla já disse que só vai voltar aos palcos quando seu marido deixar a presidência. O mandato presidencial na França é de cinco anos. Se ele for reeleito, como sói acontecer...
Moro na França, onde trabalho para o Governo brasileiro. Gosto de livros, arte e cultura. Sou jornalista, escritora, fotógrafa e especialista em Relações Internacionais