La vie est belle !
(de l'étonnement d'être vivante)

França



Cada uma que acontece !

Um francês de 66 anos, professor de Letras aposentado, virou um sans papier em seu próprio país porque o órgão administrativo que emite e renova carteiras de identidade se recusou a aceitar sua assinatura: alguns traços representando um rosto. O senhor Jackie Laisné-Brillet, que perdeu sua carteira em abril de 2007 e está desde então sem documento de identidade, entrou na justiça para obter o direito de continuar assinando em forma de desenho, como faz há mais de 20 anos.

 

Ele contou que tudo começou quando um gerente de banco lhe sugeriu trocar de assinatura, porque a que ele usava era muito banal. O desenho foi aceito pelo banco, e pelo Tesouro Nacional, que nunca devolveu nenhum de seus cheques. A carinha também assina sua carteira de motorista e o documento de propriedade de seu veículo. “Quando será mesmo a minha expulsão do país?”, ironizou o senhor Laisné, que mostra, na foto abaixo, seu título de eleitor com a assinatura desenhada.

 

foto : Mychele Daniau, AFP



Escrito por Teresa Abreu às 13h07
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L'amoureuse

Hoje faz seis meses que eu reencontrei o homem da minha vida.

Precisava falar com ele sobre trabalho e esperei com ansiedade a chegada do seu aniversário, em 15 de janeiro, para lhe telefonar. A verdade é que ele me impactou desde nosso primeiro encontro, em outubro de 2005. Foi amor à primeira vista, e nós tivemos um rápido affaire, que não foi adiante porque ele não quis. Ele estava enfrentando problemas na empresa e, sem me consultar, decidiu que não tinha o direito de me embarcar no seu inferno. Quando ele me deixou, eu disse à minha amiga que era a pessoa certa no momento errado. Pois o momento certo finalmente chegou.  No início de 2008 ele estava livre e pronto.

Anotaí

O dia em que você vier a Paris, por favor, não deixe de visitar o restaurante Nos ancêtres les Gaulois, na île Saint-Louis. Meu chéri me levou lá no sábado. Pelo valor fixo de 41 € você come (e bebe) como um ogro. A entrada é self-service e o vinho também, que você vai buscar no tonel com a sua jarra quantas vezes quiser e agüentar. E ainda tem o prato principal, os queijos, a sobremesa, o cafezinho... Depois de comer, beber e cantar (sim, tem um trovador que faz a animação, e que animação!) como um bárbaro, você fará obrigatoriamente um passeio ao longo do Sena. Imperdível.

E compre o novo CD de Carla Bruni, Comme si de rien n'était. No vídeo, a música L'amoureuse (A apaixonada).

 



Escrito por Teresa Abreu às 06h45
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Carla Bruni-Sarkozy

Não sou de ler revistas que acompanham a vida das celebridades. Nunca gostei, nem mesmo quando arrumei meu primeiro estágio na revista Amiga, da Editora Bloch. Detestava fazer perguntas pessoais e, quando era obrigada a fazê-las, explicava que a redação exigia. Os artistas que eu entrevistava compreendiam.

Os franceses, que sempre demonstraram uma indiferença estóica à vida privada das pessoas, acabaram cedendo à tentação da mediatização da intimidade de seus artistas e autoridades, sendo o presidente Nicolas Sarkozy o personagem em torno de quem giram as mais continuadas fofocas, por conta de seu casamento intempestivo com a cantora e compositora Carla Bruni, três meses após seu divórcio.

Bom, tudo isso para dizer que, embora fugindo das revistas e reportagens mexeriqueiras, eu não resisti e digitei o nome dela no Google.

Grata surpresa. Descobri uma artista talentosa e sensível, um ser humanista e delicado, uma mulher assumidamente frágil, que parece ter identificado no presidente turbinado o seu ideal de homem.

Abaixo, vídeo da música Quelqu'un m'a dit (Alguém me disse), título de seu primeiro CD, em que a bela italiana assina a autoria de letra e melodia da quase totalidade das canções. 

O próximo disco será lançado em 21 de julho, mas Carla já disse que só vai voltar aos palcos quando seu marido deixar a presidência. O mandato presidencial na França é de cinco anos. Se ele for reeleito, como sói acontecer... 

 



Escrito por Teresa Abreu às 17h43
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L'affaire d'Outreau

Vi ontem na televisão um programa sobre o que está sendo considerado na França como o erro judiciário do século, embora o século esteja apenas começando, "l'affaire d'Outreau" (o caso de Outreau). Um casal com sérios problemas mentais (ele, alcoólatra, e ela tendo sofrido abuso sexual na infância) submete seus cinco filhos a torturas psicológicas e estupros. O pai tem relações sexuais com as crianças com a ajuda da mãe, que lhes tapa a boca durante o ato. O caçula tem 5 anos. Vídeos de filmes pornográficos passam na televisão o dia inteiro e uma noite um casal vizinho é convidado a fazer um swing, em que as crianças também participam. Várias entradas dos pequenos no hospital não despertam a atenção do corpo médico. Foi após a denúncia de um deles à professora (o papai faz “coisas” comigo) que o casal é levado à justiça. Ambos são presos, as crianças são colocadas em famílias de substituição e submetidas a exames que constatam o óbvio: elas sofreram abuso sexual à repetição. O casal vizinho confessa a participação e tudo leva a crer que será um julgamento rápido e sem surpresas.

 

Mas o caso cai nas mãos de um juiz de instrução de 28 anos. A mãe das vítimas logo percebe que pode manipulá-lo e cria uma história com contornos de novela mexicana. Ela não somente confessa o abuso às crianças, como conta a prática dos atos nos mais sórdidos detalhes. Ciente do horror que causa nos advogados e no juiz que a ouvem, ela se delicia em ser o centro das atenções. E, para permanecer mais tempo na ribalta, dá novos nomes de supostos participantes de seu bacanal doméstico: o padeiro, o padre, o oficial de justiça, outros vizinhos. Dona de uma imaginação fertilíssima, ela vai aumentando a história que acaba por se transformar numa rede internacional de pedofilia, com conexões na Bélgica. Treze pessoas são presas como suspeitas, inclusive dois belgas, pai e filho, que nunca tinham visto aquele casal. O mais espantoso é que as crianças, ao serem interrogadas, confirmavam todas as alegações da mãe. O mais jovem dos prisioneiros, o belga, de 20 anos na época, resolve contra-atacar. Ele confessa a participação na rede de pedofilia e acrescenta que além do abuso das crianças, teria ocorrido também o assassinato de uma menina de 10 anos, enterrada no quintal do prédio onde o casal reside. A mulher confirma o caso e vai acrescentando, acrescentando, acrescentando.

 

Por medida de segurança, acusados de estupro são colocados em celas isoladas, de sorte que o pai das crianças não sabia das manobras da sua mulher. Até que o caso começa a aparecer na televisão e ele, de sua cela, escreve uma carta ao juiz dizendo que aquilo tudo era um delírio, que nunca houve criança morta, e que somente quatro pessoas participaram dos estupros: ele mesmo, sua mulher e os dois vizinhos. O resto era inocente. O rapaz belga também escreve ao juiz dizendo que inventou a história do assassinato apenas para demonstrar que a sua acusadora mentia.

 

Resumindo, o caso foi a julgamento três anos depois do início das denúncias e durante todo esse tempo os suspeitos permaneceram presos em isolamento. Um deles morreu de overdose dos calmantes que precisou tomar depois que esfolou as mãos de tanto bater nas paredes e gritar que era inocente. O castelo de mentiras começou a desmoronar quando as crianças foram levadas ao tribunal. Muito assustadas com o aparado judiciário (talvez as roupas dos advogados e do juiz as tenham remetido aos pesadelos que viviam quando o pai, bêbado, se fantasiava de fantasma e as acordava aos gritos no meio da madrugada) elas, então, inocentaram os 13 acusados. Ao ver o desespero dos filhos diante do júri, a própria mulher confessou suas mentiras. Depois de voltas e reviravoltas os acusados voltaram para casa com as vidas completamente destruídas. Até onde acompanhei a emissão, o jovem belga, hoje com 26 anos, contou que afundou nas drogas e ainda toma remédios psiquiátricos.

 

Instado a se explicar, o tal juiz de instrução não se deu por achado. Ele disse que seguiu os procedimentos à risca, que as suspeitas contra os acusados eram fortes, visto que as próprias crianças confirmavam tudo (inclusive o assassinato da tal menina!). A carreira dele, obviamente, acabou.

 

Quando, separada, entrei com ação na justiça para pedir pensão alimentícia para os meus filhos, o advogado do meu ex-marido fez o possível para que ele desse o percentual mais alto que a lei permitia. Meu ex-marido chegou a reclamar: “você parece mais advogado dela do que meu!” Então, o doutor Antonio disse: “a justiça é feita por leis que visam ao ser humano, o seu bem-estar. Não é porque a lei permite um percentual baixo, mas insuficiente para a dignidade da vida das crianças, que você vai dar o mínimo.” Encorajado por meus olhos esbugalhados de espanto, ele divagou: porque a justiça não é a letra da lei, mas são os homens, as universidades não deveriam, na sua opinião, formar advogados com menos de 30 anos.

 

Não sei se lhe dou razão, mas o fato é que aquele juiz, que foi acusado de “calculista” e “matemático” nos procedimentos judiciários, era jovem demais. E vou mais longe (mas isso é mera especulação de minha parte): quem sabe esse moço não tenha tido uma forte identificação pessoal com a sorte das crianças, quem sabe o que ele passou na sua infância, quem sabe o que o motivou a prender 13 pessoas durante tantos anos sem a menor prova concreta de sua culpa. Quem sabe...



Escrito por Teresa Abreu às 15h59
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Meu perfil
Moro na França, onde trabalho para o Governo brasileiro. Gosto de livros, arte e cultura. Sou jornalista, escritora, fotógrafa e especialista em Relações Internacionais

 

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