Sua máxima culpa
Faz tempo que não passo um domingo sozinha, já tinha até esquecido como é. Então, depois que você partiu, eu coloquei no DVD player aquele filme que eu comprei num desses domingos em que a gente foi bater perna em Montparnasse. Uma estória chatinha com Julia Roberts, do gênero “Sociedade dos poetas mortos” para meninas. Durante o filme, ouvi a descarga do sanitário do vizinho. Num lapso de memória, achei que você tinha ido ao toilette e fiquei esperando que voltasse. Depois de muito esperar, compreendi que era mais sensato continuar vendo o filme.
Quando você me telefonou para dizer que tinha feito boa viagem, eu tinha acabado de vestir o mantô para sair. Não te falei nada, mas eu fui à Montparnasse fazer algo que não fazia há muito, mas muito tempo mesmo: fui comprar uma garrafa de vinho. Comprei também uma revista de moda e uma bandeja de iogurte.
Disposta a me embriagar, decidi que meu jantar seria queijos e vinhos. Aí fui ficando bêbada, mas não ao ponto de esquecer de tomar o comprimido que promete ventre plat. Sentindo-me protegida pela pílula, avancei na caixa de Ferrero Rocher. Um. Dois. Três. Meu estômago começa a inchar e eu estou toda redonda e até um pouco nauseada, mas não consigo parar. E olha que coloquei a caixa de chocolate lá em cima da despensa da cozinha, de modo que tenho que subir no banquinho pra alcançá-la. Eu não desço a caixa porque toda vez digo que vai ser o último.
Sentada, pareço um pachá: um barrigão só. Amanhã, quando você chegar, eu vou estar com a cara inchada, porque é óbvio que não vou conseguir dormir, bêbada e sozinha. Eu não vou te dizer nada. Mas quando a gente brigar, daqui há uns 50 anos, eu vou jogar na sua cara que sou insone e escondo caixas de chocolate e garrafas de vinho debaixo da cama porque você me deixou sozinha num domingo de inverno.
