La vie est belle !
(de l'étonnement d'être vivante)


 
 

Boas Festas

Vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. Esteja sempre vestido com roupas de festa e unja a sua cabeça com óleo. Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol. Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol. Versos 7 a 9 do livro de Eclesiastes, capítulo 9, no Antigo Testamento da Bíblia.
Mais um ano chega ao fim, mais uma retrospectiva se impõe.
No fim das contas, 2008 foi um ano muito bom para mim. Eu diria mesmo que foi excelente. Se me deixar embalar pela emoção, ouso afirmar que foi o melhor ano da minha vida.

Fiz 50 anos em fevereiro. Carinha de 40, corpinho de 30, cabecinha de 20. Graças a cremes caríssimos dos quais não me privo e aos exercícios diários de musculação. O resto são livros, uma insaciável curiosidade intelectual. E idéias, idéias, idéias.
Um mês antes do meu aniversário, reencontrei Chéri e tudo mudou. O relato está aqui. Desde julho estamos morando juntos e esse acontecimento inesperado é a explicação para o pouco caso que tenho feito do meu blog e dos meus leitores nos últimos tempos. Vocês compreenderão, espero.

Estou fazendo meu balanço hoje porque domingo meu filho chega – não o vejo há dois anos – e terei pouco ou nenhum tempo para vir a esse espaço. O Natal contará com uma família aumentada: meus dois filhos e três de Chéri.
Eu quero desejar a cada pessoa que acessar este post uma felicidade igual à minha, em 2009. Quero lhe dizer que o árduo trabalho debaixo do sol tem recompensa sim, e que você deve estar sempre vestido com roupas de festa e ter sua cabeça ungida com óleo. Ou seja, esteja preparado para receber o imponderável. E se contente das coisas simples, como comer com prazer a sua comida e beber de coração alegre o seu vinho, ao lado da pessoa a quem você ama. Pois essa é a sua recompensa debaixo do sol – e é muito boa.



Categoria: "Conta as bênçãos"
Escrito por Teresa Abreu às 15h31
[   ] [ envie esta mensagem ]




 
 

Je l'aime à mourir

Ingresso comprado desde 14 de maio, fui ontem ao Casino de Paris assistir ao show de Francis Cabrel, que lançou este ano o CD Des roses et des orties (Rosas e urtigas). Muito fofo. Um dos artistas mais anti-celebridade que eu conheço, Cabrel faz um sucesso enorme na França há 30 anos com suas músicas engajadas, daquelas que te dão nó na garganta ao refletir sobre a desigualdade no mundo. E isso, num país onde praticamente não há miseráveis. Mas ele escreve canções românticas e lá, também, arrasa. Como essa, Outubro, que deixo de presente de fim-de-semana.



Categoria: França
Escrito por Teresa Abreu às 13h54
[   ] [ envie esta mensagem ]




Quem diria

Estou terminando de reler Touché - A French Woman's Take on the English, da francesa Agnès Catherine Poirier. Quando completou 10 anos de vida em Londres, a jornalista escreveu este livro, onde, ao comparar ingleses e franceses, londrinos e parisienses, ela é impiedosa e amorosa, ressaltando defeitos e qualidades dos dois lados do canal da Mancha sem dó nem piedade. Entre as muitas diferenças abissais dos dois povos, quero ressaltar a cultura. Segundo Agnès, a França idolatra seus artistas e intelectuais, o Ministério da Cultura é o quarto em importância e detém um dos mais polpudos percentuais do orçamento do Estado. Na Inglaterra, ao contrário, não existe um ministério específico para a cultura, mas um organismo que se ocupa de mídia, esporte, arte, herança, turismo e loteria. Os ídolos dos britânicos, se se pode fazer uma comparação, são as estrelas do rock, e isso vale para todas as gerações.

Quando, durante a faculdade, era free-lancer na revista Amiga, da editora Bloch (lembra? aquela que fazia fofoca da vida dos artistas da Globo), nós, jovens aspirantes a jornalistas, sonhávamos em viajar para a Europa. Um dia, a pergunta surgiu na redação: Londres ou Paris? Obviamente, naquela época, tudo o que tinha como informação eram os estereótipos: filosofia e luxo em Paris; contracultura e rock em Londres. Votei Londres. E hoje amo, adoro Paris, que nem é assim tão luxo e tão cultura (existem, sim, os nichos, mas a cidade é infinitamente mais do que os clichês que os estrangeiros têm dela). Londres é sempre uma atração, mais amena, pois, como já descrevi em outro post, achei-a barulhenta demais, movimentada demais, iluminada demais. Over, over, over.

Curiosamente, acho que encontrei uma cidade que está a meio caminho entre o intelectualismo de Paris e a festa da música de Londres: Dublin, capital da Irlanda. No fim de semana, fizemos programa "de homem", se ouso dizer, pois fomos à cervejaria Guinness e à destilaria Jameson. A cerveja, detestei, mas me converti ao whiskey! - com "e", por favor, para diferenciar do whisky escocês.  

A cidade é super-pequena, uma Londres em miniatura (os irlandeses que não me ouçam, pois têm pavor da Inglaterra, que os dominou por centenas de anos). Embora tenha perdido a língua de origem, o gaélico, a Irlanda produziu quatro prêmios Nobel de literatura: William Butler Yeats (1923), George Bernard Shaw (1925), Samuel Beckett (1969) e Seamus Heaney (1995). O primeiro autor irlandês célebre foi Jonathan Swift (1667-1745), autor de Viagens de Gulliver, uma fábula que (pasme!) denuncia o jugo inglês. Drácula foi escrito por Bram Stoker, funcionário do castelo de Dublin. Sem falar nos festejados Oscar Wilde e James Joyce. Em Dublin existe até um Museu dos Escritores.

Deveria existir também um museu dos roqueiros. Ainda não, mas existe o Rock n'Stroll Trail, roteiro detalhado de 16 sítios místicos para os amantes de rock, como os estúdios de Windmill Lane, onde o U2 gravou seu primeiro disco, ou o Bad Ass Café, onde Sinéad O'Connor trabalhou como garçonete.

Uma ilhota a oeste da toda-poderosa Grã-Bretanha. Mas que nos fez sonhar. Domingo, tarde da noite, horas depois de nos haver deitado, Chéri me perguntou: "você ainda está acordada?" Eu lhe disse que não conseguia dormir, tanto as imagens e os sons de Dublin eram fortes na minha cabeça. Ele também viajava acordado.

Young Dubliners, Celtic Rock and Roll



Escrito por Teresa Abreu às 20h19
[   ] [ envie esta mensagem ]




 
 

A triste verdade dos Claudel

 

Graças a uma gripe que me derrubou desde segunda-feira (cruzes, estou na cama há 48 horas!), cheguei ao fim desta leitura de Paul et Camille - a paixão Claudel. Contrariamente à nossa expectativa, Maria Augusta, a autora não elucida o motivo que levou Paul a abandonar sua irmã num asilo de loucos durante 30 anos, não tê-la vestido e alimentado convenientemente, não ter comparecido ao seu enterro e ter deixado que fosse sepultada como indigente. Nos seus derradeiros dias, numa longa entrevista a um jornalista, ele diz apenas que ele teve uma vida bem-sucedida, enquanto sua irmã, com todo o talento que possuía, foi um fracasso.

Por outro lado, Laura, tomei conhecimento de um outro Auguste Rodin. Ele sim, foi o grande braço direito de Camille. Quando ela o deixou, ele esteve ao ponto de morrer de desespero e à medida que a doença dela avançava - ela sofria de paranóia e mania de perseguição - ele nunca a abandonou, mesmo se todo o furor da escultora se voltou contra ele. Ele contratava testas-de-ferro para comprar as esculturas de Camille, pois ela não as venderia para ele, mesmo se precisasse desesperadamente de dinheiro.

Para entender o drama dessas vidas, é preciso contextualizar várias coisas: a moral da época, a religiosidade (assim como Paul, Rodin era católico praticante e vivia atormentado por sua vida de pecado), mas também as histórias pessoais de cada um. Eles tiveram uma infância dramática. A mãe dos Claudel tinha uma preferência absoluta por sua segunda filha e um desprezo também absoluto por Camille e Paul, que se tornaram unidos desde a infância para se proteger da inimiga comum - e isso não é um eufemismo.

Paul, no entanto, se converteu ao catolicismo aos 32 anos e sua fé o ajudou a superar os traumas da infância, pois ele adotou a Virgem Maria como sua mãe. Camille, sempre agnóstica, não teve qualquer amparo quando viu que sua história de amor não iria se realizar como ela queria e aí entrou o desvio - que Paul também tinha (o medo de também enlouquecer foi um dos seus grandes fantasmas).

Nada justifica, porém, o total abandono de sua irmã. Ele queria talvez proteger sua imagem de diplomata bem-sucedido e Camille representava a vergonha da família? Mesmo seus netos ignoravam a existência da escultora.

Evidentemente, a leitura de um livro é pouco - ou nada - para emitir um juízo. Mas se a autora fez uma pesquisa aprofundada, e eu acho que fez, mesmo se ela não faz nenhum julgamento, nem sobre Camille, nem sobre Paul, nem sobre Rodin, nem mesmo sobre a mãe dos Claudel, eu não preciso me privar de emitir minha opinião. Para mim, o grande carrasco de Camille não foi Rodin, como talvez a literatura e o cinema franceses quiseram nos fazer crer para não manchar a imagem de seu grande poeta, dramaturgo e diplomata.  Desde que inaugurou seu museu, Rodin assumiu o compromisso de dedicar um espaço às obras de Camille - o que ela nunca soube. Foi ele  o principal perpetuador da obra da artista.

Enfim, se eles foram todos vítimas das circunstâncias e do tempo em que viveram, a atitude de Paul, do meu ponto de vista, é imperdoável.



Categoria: Livros
Escrito por Teresa Abreu às 16h34
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]




Meu perfil
Moro na França, onde trabalho para o Governo brasileiro. Gosto de livros, arte e cultura. Sou jornalista, escritora, fotógrafa e especialista em Relações Internacionais

 

Locations of visitors to this page

UOL

 
Histórico
  01/09/2009 a 30/09/2009
  01/07/2009 a 31/07/2009
  01/06/2009 a 30/06/2009
  01/05/2009 a 31/05/2009
  01/04/2009 a 30/04/2009


Categorias
  Todas
  Livros
  França
  Brasil
  Miniconto
  "Conta as bênçãos"
Sites amigos
  Minhas fotos - Mes photos
  La vie est belle! (o antigo)
  Soraia direto de Chicago
  My little Paris
  Ramses no século XXI
  Le blog d'Estelle en Irlande
  Blog da Martha Medeiros
  Idéias e livros
  Pensieri e parole
  Porão abaixo®
  Histórias do mundo
  Blog da Magui
  O mundo sueco e eu
  trajédia
  Cissinha
  Croissant-land
  Caminhar
  Pisando em uvas
  Brasileirinha
  Forum democrático
  Blogup
  Cenas do cotidiano
  As Palavras Todas
  Pub 66
  Samba Um
  avant-dernières pensées
  Luz de Luma
  Observador
  Bloggente
  Gazeta mundo cão
  Sandra Pontes
  Lino Resende
  O Chato
  Fotoblog da Filhinha
  Bibi Move Scliar
  Petite parisienne
  Balaio Porreta 1986
  Côté cour, Côté jardin
  Política à francesa
  Banca do Blues
  Bom dia, França
  Além da Torre
  meus instantes
  Nothing and all
  Facebook
  UOL
Votação
  Dê uma nota para meu blog