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Categoria: Brasil
Escrito por Teresa Abreu às 18h22
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O olhar do outro
Cheguei à última página do livro Corcovado. O marselhês Jean-Paul Delfino, amante inconteste do Brasil e do povo brasileiro, quis contar a seus conterrâneos a história da construção do Cristo Redentor. Não achando suficiente fazer um relatório histórico, ele preferiu criar um personagem que desembarca no Rio de Janeiro em 1921 e, a partir daí, conta as impressões de um francês que imerge na boemia da Lapa, nos morros do Centro, no jogo do bicho, nos rituais de Candomblé, nas rodas de samba, na Semana de Arte Moderna, na política e na economia brasileiras. E, naturalmente, nos fatos que levaram à edificação do Cristo Redentor.
Corcovado é o primeiro livro de uma trilogia. O autor explica que decidiu escrever sobre o Brasil porque sentia vergonha. “Vergonha de que a França não conheça melhor esse país com o qual mantém, há 500 anos, relações de uma riqueza extraordinária. Vergonha de que os franceses ainda retenham os clichês piegas e fáceis sobre o Brasil, que vêm, com ingenuidade e desprezo, como um país de samba, futebol, prostituição e violência. Vergonha mais ampla de que a Europa ainda se sinta, inconscientemente, proprietária dos países da América Latina, da África ou da Ásia. Vergonha, finalmente, de que nós ainda vejamos o Brasil pelas lentes que nos foi apresentado no Século das Luzes: um país de bons selvagens.”
Um livro que todo brasileiro deveria ler, pois o olhar estrangeiro e apaixonado do personagem Jean Dimare tem muito a nos esclarecer sobre a nossa maneira de vivermos a nossa brasilidade.

CORCOVADO (em Português) 2005
Delfino, Jean-Paul
Record
Literatura estrangeira-romances
Categoria: Livros
Escrito por Teresa Abreu às 17h38
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Terezinha de Jesus
A vida é feita de escolhas. Nós, humanos, temos uma visão um tanto limitada de nossa mísera existência, que se resume ao conhecimento, muitas vezes inconsciente, do passado e do presente. O futuro a Deus pertence, diz a sábia voz do povo. Como, nos dias que correm, a maior parte dos mortais prescinde da presciência de Deus, o futuro não passa de um enorme ponto de interrogação.
No entanto, qualquer que seja a orientação religiosa ou existencial do mais comum dos mortais, fazer escolhas é preciso, porque, no fim das contas, a fila tem que andar. E eis-nos diante de um problema difícil: o de decidir, aqui e agora, o que queremos para o resto de nossas vidas, se é que esta expressão ainda tem lugar nos dias de hoje, em que tudo é relativo.
Relativo demais.
Terezinha de Jesus foi ao chão e três cavalheiros prontificaram-se a acudi-la. Com o primeiro teve uma forte identificação intelectual. O diálogo entre eles era como uma partida de esgrima: dinâmico, afinado, elegante. Cérebros gêmeos.
O segundo era o seu oásis. Qualquer que fosse o deserto que Terezinha tivesse de enfrentar, as suas sábias palavras e os seus conselhos lúcidos lhe apaziguavam as inquietudes e lhe renovavam as forças para as difíceis travessias vindouras.
O terceiro lhe proporcionava aquela segurança que só o confiante abandono da infância pode ensejar. Ele vinha de longe, dos dias de sua juventude, e a constância de seus sentimentos dava a Terezinha a certeza de que ao seu lado ela estava em casa.
Mas foi a um quarto cavalheiro que a Tereza deu a mão. Ele não lhe garantiu nada. Nem precisava, porque ela não o escolheu para satisfazer o seu intelecto, ou a sua fragilidade, e menos ainda a sua memória. Ele falou-lhe às entranhas...
... e ela não teve escolha.
Categoria: Miniconto
Escrito por Teresa Abreu às 22h21
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Viva o calor e viva o amor!!!
Moro no mesmo apartamento há quatro anos e toda vez que chega o verão eu digo que vou comprar uma mesa para a varanda. O sol aqui é tão raro e tão rápido que, quando aparece, você pára tudo e vai “pegar sol”, literalmente. Bom, nos últimos anos, devido ao aquecimento do planeta, as coisas têm sido diferentes. Já o inverno do ano passado foi bem xôxo; o deste ano também, e neste início de maio estamos com temperaturas de verão.
Pois eu aproveitei uma promoção para comprar a tão falada mesa de varanda. Não sei se é porque eu estou apaixonada, sonhando com a perspectiva de que meu chéri e eu possamos tomar o café da manhã ao ar livre, eu achei que a mesa era imprescindível. Et la voilà.

Hoje é feriado na França, em comemoração à capitulação da Alemanha na segunda guerra mundial. E eu vou pegar sol, literalmente.
Escrito por Teresa Abreu às 13h54
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Quem lê, viaja
O pensamento é uma das forças mais poderosas que um ser humano pode possuir. A organização do pensamento em palavras é um dom, e a coragem de exprimi-las em situações adversas é uma necessidade imperiosa nos espíritos livres. Essa semana eu tive a sorte de conhecer dois exemplares dessa espécie, por intermédio de seus livros: o húngaro Stephen Vizinczey e o chinês Dai Sijie. Do primeiro, li Éloge des femmes mûres (literalmente, Elogio às mulheres maduras), um livro classificado como “erótico”. Não é, ou melhor, eu não acho que seja. Autobiográfico, o livro mostra a vida do autor do ponto de vista de suas aventuras sexuais. Como pano de fundo, a Hungria sob ocupação nazista, em 1944, e, em seguida, diluída no saco de gatos da União Soviética, passando pela insurreição de 1956 e fragmentos da história húngara desde os tempos do império romano. Uma aula de história, heroísmo e sensualidade.
O segundo livro, Balzac et la Petite Tailleuse chinoise (Balzac e a costureirinha chinesa), é um primor da literatura chinesa, refinada como sua porcelana, sua seda, seus ideogramas. O autor relata a estória, não sei se autobiográfica, de um adolescente que furta uma mala contendo livros de autores ocidentais, proibidos durante a revolução cultural de Mao Tsé Tung, de 1966 a 1976. Aqui também as descobertas amorosas e sexuais do jovem em “reeducação cultural” são entremeadas com fatos históricos de seu país.
Vizinczey é filósofo e vive na Inglaterra. Dai é cineasta e mora na França. Dois espíritos livres, que sobreviveram a seus respectivos totalitarismos, enfrentaram-nos, evadiram-se e encontraram meios lúdicos de denunciar a opressão, usando como recurso a memória afetiva das descobertas da juventude. Em quatro dias de leitura eu adquiri novos conhecimentos sobre a Hungria, a China, a capacidade humana para resistir, a sensibilidade masculina.

Categoria: Livros
Escrito por Teresa Abreu às 22h18
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