Provence
Passear pela Provence, um dos lugares mais lindos do Sul da França, é garantia de excelência. Suas marcas registradas são a cigarra e a lavanda, além do vinho com apelação Côte du Rhône (mas o meu favorito é o Chateauneuf du Pape, produzido nas vinícolas do castelo de Avignon, que foi moradia dos papas durante 300 anos na Idade Média).
Não bastasse o charme e a beleza da região, ela ainda é pródiga em história. O mau tempo deste verão em Paris me levou a descobrir um pouco do misticismo católico dessa região sempre ensolarada. Durante seis dias passeei por três abadias de arquitetura românica, que floresceu na Europa entre os séculos XI e XIII.
O estilo, austero, foi idealizado por são Bernardo para ser “a projeção de um sonho de perfeição moral”, um lugar onde os monges deveriam viver segundo a regra de são Bento, que pode ser resumida por três votos: obediência, pobreza e castidade. O lugar, desprovido de obra artística, é propício à oração e à meditação.
Impressiona, ainda hoje.

Sénanque - construída em pedra, a abadia resiste à passagem dos séculos

Le Thoronet - no minimalismo arquitetônico, modelo ideológico e funcional, propício à austeridade e à simplicidade

Silvacane - convite ao silêncio total para desenvolver a vida interior
Escrito por Teresa Abreu às 16h11
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Nas entranhas de Paris
Normalmente, quando se pensa na história de Paris, a primeira coisa que vem à mente é a tomada da Bastilha, e os episódios que marcaram a Idade Média. Pouco se ouve falar, no entanto, dos primórdios da cidade, seu passado gaulês e, menos ainda, a dominação romana. Foi essa parte da história que descobri neste domingo.
Bem no meio do rio Sena tem uma ilha chamada Ile de la Cité, onde se encontra a catedral de Notre-Dame. Foi lá que Paris começou a existir, no século III AC, ocupada pelos parisii, gauleses de origem celta. Eles deram à cidade o nome de Lutèce. Povo pacato, evoluiu nas artes e no comércio até 52 AC, quando a cidade foi conquistada pelos romanos. Roma não destruiu a cultura gaulesa, mas impôs, suavemente, a "romanização" da Gália (França), e de Lutèce, dando origem ao que hoje é conhecida como a civilização galo-romana, que florescerá até 406-407, quando começam as invasões bárbaras.
Num passeio que me custou 4 horas de caminhada, visitei as entranhas da cidade-luz. Eis o resumo:

Cripta arqueológica de Notre-Dame. Os vestígios da passagem dos romanos por Paris foram descobertos em 1965, durante as escavações para a construção de um estacionamento subterrâneo. Como este sítio arquelógico se encontra bem embaixo do pátio da catedral de Notre-Dame, a prefeitura resolveu construir uma cripta subterrânea. Modelo único no mundo, a cripta abriga, num espaço de 117m de comprimento por 24m de largura, in situ, os restos mais bem conservados da arquitetura galo-romana.

Cripta arquelógica de Notre-Dame, bem embaixo da catedral.

Cripta arqueológica de Notre-Dame. Aqui, o que sobrou de uma cave.

Termas do museu de Cluny. Datam dos séculos II e III da era cristã. O vestígio mais bem conservado é o do frigidarium, onde os parisii tomavam o banho inicial, que era frio. Em seguida, passavam para o tepidarium, para o banho de água morna, para terminar no caldarium, a versão romana da sauna. Para finalizar o relaxamento, o visitante se dirigia aos jardins para assistir a um concerto, ou a uma conferência (mens sana in corpore sano).

Arenas de Lutèce. Construídas no século I da era cristã, aí se encenavam espetáculos de circo, peças de teatro (tragédias e comédias de repertório romano), acrobacias e danças, mas também combates de gladiadores e de animais. Os vestígios das arenas foram descobertos em 1869. Na época, uma companhia de ônibus queria demolir o local para construir um depósito. O presidente de honra do Comitê das Arenas criado para defender o sítio arquelógico enviou uma carta dramática ao presidente do conselho municipal:
"Senhor Presidente,
Não é possível que Paris, a cidade do futuro, renuncie à prova viva de seu passado. O passado conduz ao futuro. As Arenas são a marca de antiguidade dessa grande cidade. Elas são um monumento único. O Conselho Municipal que as destruir se destruirá a si mesmo, num certo sentido. Conserve as Arenas de Lutèce; conserve-as, custe o que custar. Além de fazer uma ação meritória, Sua Excelência dará um grande exemplo, o que é ainda mais vantajoso.
Com um aperto de mão,
Victor Hugo".
P.S. As fotos são de minha autoria. As informações foram extraídas do "Guide du routard - Paris balades"
Escrito por Teresa Abreu às 19h09
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