O Rio é hoje uma cidade diferente daquela que deixei há 11 anos. Mudou para melhor em alguns aspectos, e noutros, para pior. Para mim, voltar ao Rio é retroceder a vivências bem guardadas na memória afetiva. Algumas vezes, trata-se mesmo de exumar lembranças que eu preferiria mortas, e bem mortas. Não tem jeito: voltar ao ninho antigo é reviver o passado.
A Tijuca, bairro onde fui criada, está descaracterizada pelo abandono. Os prédios sem manutenção atestam a decadência provocada pelo tempo, pela poluição, pelo uso predatório. Tornou-se um bairro feio. A Lapa, ao contrário, renasceu. Os velhos casarões decadentes da minha juventude ainda estão lá – ainda bem -, mas restaurados. Abrigam casas noturnas freqüentadas pela corajosa juventude carioca, segundo ouvi dizer, pois não tive oportunidade de visitar nenhuma delas. Desta vez. Ipanema e Leblon não pioraram nem melhoraram, continuam a delícia que sempre foram.
A minha viagem no tempo, no entanto, não se restringe à geografia da cidade, aos velhos e bons amigos que revi ou ouvi por telefone. Fiz, sobretudo, uma volta à pessoa que fui e que julgava superada pela maturidade. De repente, lá estava a mocinha que não conseguia imaginar o seu futuro, que temia ser esquecida por Deus e o mundo, que não tinha autoconfiança suficiente. O reencontro, inesperado, me assustou. Ainda estou de férias e, como se vê, em fase de reconciliação com a minha própria história.
Sofri um acidente e o meu dente incisivo central superior esquerdo foi empurrado para trás. Muito. Eu olhava no espelho e a minha boca estava encharcada de sangue, assim como meu rosto, minhas mãos e minha roupa. Com o polegar da mão esquerda, eu empurrava o dente para a frente e ele vinha, ainda que na sua “caminhada” fizesse jogar bastante sangue. Até que finalmente o dente parou e eu olhei novamente no espelho. Ele não estava completamente alinhado, mas estava ao lado do seu par, que nada sofreu.
In any other world You could tell the difference And let it all unfurl Into broken remenance
Smile like you mean it And let yourself let go
Cause it's all in the hands of bitter, bitter men Say goodbye to the world you thought you lived in Take a bow, play the part of a lonely lonely heart Say goodbye to the world you thought you lived in To the world you thought you lived in
I tried to live alone But lonely is so lonely, alone So human as I am I had to give up my defences
So I smiled and tried to mean it To let myself let go
Cause it's all in the hands of bitter, bitter men Say goodbye to the world you thought you lived in Take a bow, play the part of a lonely lonely heart Say goodbye to the world you thought you lived in To the world you thought you lived in
Cause it's all in the hands of bitter, bitter men Say goodbye to the world you thought you lived in Take a bow, play the part of a lonely lonely heart Say goodbye to the world you thought you lived in To the world you thought you lived in
Say goodbye to the world you thought you lived in [x2] Say goodbye
In any other world You could tell the difference
[Spoken] "I never ever, I forget my story. My face is not sad, but sometimes, I am sad."
Véspera de feriado na França, estava indo encontrar-me com uma amiga tanguera. Na saída do metrô, ia sendo “atropelada” por um deficiente visual, desses que andam com uma bengala. Ele caminhava atrás de mim, mas em minha direção, quando um rapaz que vinha no sentido oposto evitou o choque por um triz. Ele gritou Attention!, pegou o moço pelo braço e o colocou na direção correta. Surpreendida, agradeci com um leve sorriso, sem interromper minha caminhada. Quando subia as escadas do metrô, ouvi uma voz que insistia, Madame, Madame! Virei-me, era o rapaz que tinha evitado o acidente. « Eu só queria dizer que você tem um sorriso muito charmoso, muito lindo mesmo ». Ele tinha um olhar humilde e, também, um sorriso bonito.
Alcancei a rua refletindo sobre o quanto pode ser imensa a solidão de um ser humano, ao ponto de motivá-lo a correr atrás de uma pessoa desconhecida por causa de um discreto sorriso de agradecimento.
Como todos os anos, está acontecendo o Festival do cinema brasileiro de Paris. Domingo, antes de ir para o tango, assisti a Vinícius. Ri e chorei, como era de se esperar. E fiquei super-chateada porque, como não estava prestando atenção nas legendas, perdi a tradução para tesão, que Tônia Carrero fala duas vezes. Droga. Se alguém souber como é tesão em francês, por favor, me diga !
Hoje vou ver Proibido proibir, depois da passeata em apoio a Ségolène Royal. Não que eu seja a favor da candidata. Ao contrário, acho Sarkozy infinitamente mais bem preparado do que ela. Nossa!, é impressionante o poder de convencimento do moço. Porém, como não voto - graças a Deus, que as eleições no Brasil, ano passado, já me fizeram sofrer bastante -, ça m'est égal ! Vou mesmo me encontrar com amigas franco-brasileiras, que, estas sim, votam Segô.
Assim, festejo o meu terceiro ano em Paris, pois cheguei num 1º de Maio!
Atualização por volta das 17 horas
Na percussão das francesas em favor de Ségolène não faltou nem mesmo o bumbo com a bandeirinha do Brasil!
Moro na França, onde trabalho para o Governo brasileiro. Gosto de livros, arte e cultura. Sou jornalista, escritora, fotógrafa e especialista em Relações Internacionais