La vie est belle !
(de l'étonnement d'être vivante)


Nada

 

Ela não queria ouvir nada, ler nada, ver nada. Não queria saber de nada. Não queria nada. Rádio, televisão, internet, tudo desligado, desconectado. Não era a primeira vez que essa rejeição ao mundo lhe acontecia. Já lhe ocorrera de desligar os telefones, fixo e celular, um fim-de-semana inteiro e se fechar dentro de casa, cansada de tudo o que lhe parecesse inútil, supérfluo, desnecessário, excessivo, incluindo as pessoas. Desprovida de necessidades, de afetos, de desejos.

 

Continuava indo ao trabalho, mas era como se uma muralha invisível a privasse do contato das outras pessoas. Ela as ouvia, respondia, olhava-as sem realmente as ver. Também, não era vista. Quando andava pelo corredor tinha, às vezes, a sensação de não iria chegar nunca, que o corredor se estenderia para sempre rumo ao nada. Não por acaso, vestia-se de branco. Embora os cientistas digam que no espectro solar o branco é a soma de todas as cores, ao olho humano não é assim. O branco não é nada.

 

Ao contrário do que se possa imaginar, não havia, na mente, um turbilhão de pensamentos. Não havia nada. Por vezes, somente, uma sensação de adentrar um pouco mais no nada, suavemente. Sem alegria, sem sofrimento algum. Sem qualquer dor, física ou moral. Como num sonho dentro do sonho, sonhava que acordava e praticava cuidadosamente todas as rotinas cotidianas para depois se deitar e continuar sonhando. Não sonhava nada.



Escrito por Teresa Abreu às 10h57
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Desconsolada

 

O lindão da mamãe partiu.



Escrito por Teresa Abreu às 10h13
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Votos para o Ano Novo

Sandrinha me convocou a mostrar minha listinha. Em 2007 eu quero:

1) dançar melhor

2) amar melhor

3) trabalhar melhor

4) viajar mais

5) ser mais feliz



Escrito por Teresa Abreu às 15h22
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Cuatro piernas y un corazón... partido

 

Já havíamos dançado antes, você perguntou minha origem, eu respondi às suas breves perguntas enquanto dançávamos. Naquela noite, você me convidou de novo, e lembrou que eu sou brasileira. Conversamos ainda menos do que da primeira vez. Não tínhamos maiores curiosidades sobre o outro. Estávamos ali para dançar. Mas algo aconteceu. O tango foi entrando na veia, os acordes foram dominando. Verdade que aquela foi uma prática fora do habitual, pois havia uma orquestra. Normalmente, dança-se ao som de um CD player de qualidade pra lá de duvidosa. A orquestra nos transportou. E os nossos corpos se aproximaram, nossos pés encontraram seu compasso e nós comungamos a magia do tango argentino. 

 

Para mim, surpresa total. Encantamento. Você não sabe, mas eu sou um espelho: o meu comportamento reflete o meu estado de espírito, para o bem e para o mal. Você percebeu o meu transportamento e também se deixou levar. Tanto que não quis dançar com mais ninguém naquela noite, só comigo. E quando anunciei minha partida, você pediu o número do meu telefone. Combinamos nos encontrar para dançar, e assim foi. Quando nos reencontramos, o fenômeno se reproduziu. Na verdade, você encontrou o jeito de me conduzir, e eu encontrei o jeito de te acompanhar. Eu não te estranhei (mesmo que não te conheça), não achei repugnante nem invasivo o contato estreito dos nossos corpos, colados das bochechas às coxas. Você estava feliz, e eu também. Christian disse que foi bonito nos ver dançando.

 

Mas então, tal qual num conto de fadas, o encanto foi quebrado, estilhaçado em pedaços. Na ânsia de repetir a magia, eu te passei uma mensagem no celular falando sobre o curso de eletrotango. Talvez esperando a mesma transcendência, você me telefonou dizendo que iria ao curso. Mal sabíamos... Lá não éramos quatro pernas em passos unicórdios. Éramos uma dupla aprendendo uma nova figura. E você não compreendeu de imediato. Quando pedi à assistente do professor que te esclarecesse, o seu sangue ferveu. O meu coração gelou. A partir daí, você era todo críticas. Criticou o professor, acusando-o de ser muito argentino, enquanto você mesmo estava sendo exageradamente francês. Acusou-me de falta de equilíbrio, de eixo, de noção de diálogo corporal (ça alors!!!). Exasperou-se. Imediatamente compreendi que o “nós” tinha chegado ao fim. As doze badaladas soaram e tudo voltou ao seu estado natural, ou seja, nós voltamos a ser duas pessoas estranhas uma à outra. Tudo o que sabemos é o prenome e o número do telefone celular. Com a cabeça regada do champanhe do 31 de dezembro, ainda te mandei uma mensagem de feliz ano novo, que você só respondeu dois dias depois... às três horas da madrugada.

Depois, silêncio. Repetir aquela magia virou uma obsessão, uma necessidade física, como quando a gente come e mais tarde volta a ter fome; ou quando acorda de uma noite bem dormida e no fim do dia tem sono de novo. Para aplacar a falta da “nossa” comunhão, saí todas as noites, percorrendo as milongas de Paris, em busca de outro parceiro que me levasse àquele êxtase. Em vão.



Escrito por Teresa Abreu às 15h09
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Meu perfil
Moro na França, onde trabalho para o Governo brasileiro. Gosto de livros, arte e cultura. Sou jornalista, escritora, fotógrafa e especialista em Relações Internacionais

 

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