La vie est belle !
(de l'étonnement d'être vivante)


Outono

Ontem fui à cave guardar umas garrafas de vinho brasileiro que comprei na Brasiloja. A cave de um imóvel é uma peça muito estranha para uma carioca. Fica no subsolo, é úmida, escura, cheia de portas, remédios para ratos espalhados pelos chão, boa para cenas de filme de suspense. Qualquer hora dessa vou fotografá-la.

Lá, encontrei meu vizinho de porta (somos dois apartamentos por andar), que perdeu a esposa há mais ou menos dois meses, no acidente mais besta possível. Ela estava andando de triciclo (isso mesmo, aquele com duas rodinhas atrás) e virou. Quebrou o pescoço e morreu na hora. Foi o porteiro quem me contou, assim que eu voltei das minhas férias e, embora a regra de boa vizinhança me advirta que eu deveria bater na sua porta, apresentar condolências e colocar-me à sua disposição, não o fiz.

Ele foi à cave buscar umas caixas de papelão para, segundo me disse, se desfazer das coisas de sua mulher. Eu estava muito sem graça, e lhe falei que não tinha encontrado as palavras para abordá-lo. Ele pareceu compreender e disse que eu provavelmente teria dito as palavras clássicas, que todo mundo diz. E acrescentou que sabia que podia contar comigo numa emergência.

Um homem fragilizado revelou-me que o pior estava sendo o fim-de-semana, quando tinha que fazer sozinho tudo o que antes fazia a dois. E me perguntou se eu não sentia falta do sol do Brasil (o outono trouxe o céu cinza, que é quase uma marca registrada de Paris). O tempo que durou o trajeto da cave ao nosso andar eu não soube o que dizer.

De volta ao meu apartamento, fechei a porta com o coração apertado, depois de desejar-lhe um ridículo "bom dia". Mais tarde, tive a impressão de ter ouvido a campainha tocar, mas não tenho certeza, pois dormia um sono pesado.

Acho que foi só impressão mesmo. Fiquei com aquela conversa na cabeça e a verdade é que eu tenho medo do sofrimento, da dor. Eu acho que tenho mais medo da vida do que da morte.



Escrito por Teresa Abreu às 11h48
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Monstruosidade

 

 

Uma das coisas que mais têm interpelado pais, educadores, médicos, psicólogos e psiquiatras nos tempos atuais é a obsessão das mulheres de todas as idades pela beleza perfeita, a juventude eterna, o sex-appeal irresistível. As clínicas estão repletas de casos de anorexia, os cirurgiões plásticos fazem fortunas e a indústria cosmética, quem lê revistas femininas sabe, é a que mais cresce no mundo.

A fabricante de produtos femininos Dove, dos Estados Unidos, acaba de lançar um vídeo que me sinto na obrigação de divulgar, se você ainda não teve a oportunidade de encontrar na Internet. Eu o achei chocante. A frase que abre o vídeo diz: "Como a nossa noção de beleza pôde ficar tão distorcida?". E a última: "Toda garota merece se sentir bonita do jeito que ela é".

O título deste post traduz meu pensamento sobre a manipulação digital da imagem: a figura maravilhosa que vemos no outdoor é um monstro, não é um ser humano de verdade.



Escrito por Teresa Abreu às 06h42
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Hino da segunda-feira

 

Clique aqui. O refrão diz:

"Eu não quero trabalhar 

eu não quero almoçar 

eu só quero esquecer 

e, no mais, eu vou fumando"

Dependendo do trabalho, pode ser o hino da terça, da quarta, da quinta, da sexta, ou do sábado. Que domingo é dia de tango.



Escrito por Teresa Abreu às 17h02
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Solteira no fim-de-semana

Não estava previsto - pelo menos para mim -, mas JP trabalhou este fim-de-semana. Como a nossa felicidade não está nas mãos dos outros, mas apenas na nossa, depois do susto inicial, comecei a me reprogramar. Fazer o que? Com quem? Onde? Telefonar para uma ou outra colega, cara-de-pau, né? Além do mais, elas estão com os seus companheiros. Telefonar para a filhinha, em Londres, pra chorar pitangas? Muito caro.

Fui ao cinema. O diabo veste Prada é quase cinco estrelas. Meryl Streep está impagável no papel da megera Miranda Priestly, e eu até me surpreendi ao ver Gisele Bündchen fazendo uma ponta. O diabo (não a Priestly) é o tal american way of life, que estraga tudo. A moça estava conquistando o seu espaço no mundo (apesar da megera!), quando resolve jogar tudo para o alto e partir para Boston com seu namorado ajudante de cozinha. Tenha a santa paciência!!! Não tenho nada contra os ajudantes de cozinha, mas uma pessoa em plena ascensão profissional não faz isso. E logo uma americana!!! Ah, não! Comédia de costumes com lição de moral pequeno-burguesa, não convenceu. Sou mais as telenovelas brasileiras, em que o aprendiz de diabo, no final, sai melhor do que o mestre.

Faz alguns anos, conversando com uma colega mais antiga no ministério, que tinha servido em vários postos, eu lhe perguntei se os americanos são mesmo do jeito que aparecem nos filmes. Ela me disse uma frase lapidar: "Teresa, os filmes não mostram o que os americanos são, mas o que eles gostariam de ser". Ah, bom. Saí do cinema e - aí, sim - liguei para a filhinha para dizer-lhe que ela tem que ir ver o filme.

Paris hoje amanheceu ensolarada. Liguei o computador, li dois jornais brasileiros, baixei umas músicas de Stéphane Pompougnac (Hôtel Costes)visitei alguns blogs amigos, li e-mails. E decidi: depois de alguns meses de enrolação, recomecei hoje minhas aulas de tango. Bom demais!!! Voltei pra casa cheia de adrenalina, e pronta para uma semana dura de trabalho, ainda que meu chefe não se chame Miranda Priestly.



Escrito por Teresa Abreu às 15h27
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Trate de ser feliz

Siga com tranquilidade entre o tumulto e a pressa, e lembre-se da paz que existe no silêncio.

Sem se anular, procure ter boas relações com todas as pessoas. Pronuncie devagar e claramente a sua verdade, e ouça os demais; mesmo o simples de espírito e o ignorante têm a sua história. Evite os indivíduos ruidosos e agressivos, eles são um vergonha para o espírito. Não se compare com ninguém: você correria o risco de se tornar inútil ou vaidoso, pois haverá sempre os maiores e os menores do que você.

Cuide da sua carreira. Por modesta que seja, é tudo o que verdadeiramente lhe pertence, enquanto o sucesso varia de acordo com a moda. Seja cuidadoso nos seus negócios, o mundo está cheio de aproveitadores. Mas não deixe de enxergar as virtudes que o cercam, pois diversos são os que buscam os grandes ideais, e por toda a parte a vida está cheia de heroísmo.

Seja autêntico. Sobretudo, não finja na amizade. Também, não seja cínico no amor, pois, confrontado à esterilidade e ao desencanto, ele é tão duradouro quanto a erva.

Aceite com boa-vontade o conselho dos mais velhos e renuncie com graça à sua própria juventude. Procure cultivar um espírito forte, com o qual possa se proteger em situação de desgraça inesperada. Mas não desista dos seus sonhos: muitos medos são frutos do cansaço e da solidão.

Mantenha uma disciplina saudável, mas seja generoso com você mesmo. Você é um filho do universo, e tem o direito de estar aqui, tanto quanto as árvores e as estrelas. E, ainda que você não perceba, o universo segue exatamente como deveria. 

Viva em paz com Deus, qualquer que seja a idéia que você faça dele. Independentemente de suas lutas e de seus sonhos, guarde a paz dentro da sua alma em meio à desordem ruidosa da vida. A despeito das perfídias, dos trabalhos penosos e dos sonhos desfeitos, o mundo ainda é belo.

Esteja atento, e trate de ser feliz.

Texto escrito em 1692, de autor desconhecido e encontrado numa igreja de Baltimore



Escrito por Teresa Abreu às 19h19
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Azeda

Fui para Londres com o pior dos estados de espírito. Lá chegando, encontrei a filhinha com os olhos inchados de tanto chorar (o motivo está no post abaixo). Foi minha primeira visita e achei a cidade uma babel: lotada de imigrantes, de todas as etnias e línguas. Brasileiros que não acabavam mais, dos quais poucos eram turistas. A maior parte está lá na mesma situação em que estava Jean-Charles de Menezes, aquele eletricista mineiro que foi morto pela polícia no metrô. Ou seja, para fazer trabalhos de baixa qualificação que os ingleses não fazem mais devido ao seu alto nível de escolaridade.

Em termos de arquitetura, a cidade impressiona... pela feiúra. Aqueles prédios de tijolinho vermelho que a gente vê nos filmes, só que sujos, desbotados, grafitados. Para quem mora em Paris é um choque. O Big Ben é outra decepção. O relógio mais famoso do mundo é mais imponente nas fotografias do que ao vivo e em cores.

Os londrinos fazem juz à fama. Lá pelas 19 horas do sábado já tinha uma quantidade enorme de gente bêbada nas ruas, sem distinção de sexo ou idade. Não sei se é só por isso, mas a cidade ferve. Hiper-movimentada, hiper-iluminada, hiper-barulhenta. Sirenes e viaturas em disparada o tempo todo. Eu já tinha tido uma prévia do comportamento dos ingleses na ilha grega de Zakhyntos, durante minhas férias de verão. Todos muito jovens, eles vão para lá em vôos fretados e aprontam. Não vou entrar em detalhes, basta imaginar o que é um grupo de adolescentes reprimidos quando se vê longe de familiares.

Bem, chega de falar mal da cidade. Acho que estou virando francesa . É que neste fim-de-semana eu precisava mesmo era de recolhimento. Claro que vi coisas legais, e vou voltar. Conheci uma feira maravilhosa, onde se encontra de tudo, literalmente. No espaço reservado às comidas, havia barracas com especialidades de todos os continentes e eu me esbaldei com meu almoço africano. A maneira como as inglesas se vestem é um capítulo à parte. Não é à toa que Londres está despontando como a nova capital da moda internacional.

Sem falar no reencontro com a filhinha, que foi o motivo da viagem.

 

Tirei poucas fotos porque minha máquina travou no primeiro dia, o que contribuiu para me azedar. As que consegui fazer estão no fotolog.



Escrito por Teresa Abreu às 07h43
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Efeito retardado

Hoje estou correndo. Cheguei em casa às 20 horas, lavei e escovei o cabelo, preparei o jantar, jantei, lavei a louça, conferi a mochila: viajo amanhã, às 7 horas da manhã, para Londres, para um fim-de-semana com a filhinha, depois de quatro semanas da sua partida.

O dia foi cheio. Cheiíssimo. Em pleno expediente, último dia de Conselho Executivo na UNESCO, idas e vindas da sede ao anexo e vice-versa, a filhinha me telefona aos prantos lá de Londres. Soube, pelo Orkut, que o primeiro namorado dela em Brasília morreu naquele avião da Gol que caiu na Amazônia há 19 dias. Eu não quis acreditar. Chequei a lista de passageiros na Internet, o nome dele estava lá, mas peralá, né, quantas teresas abreus existem no mundo? Pesquise você no Google, só pra ver. Assim, passei um e-mail para uma fonte segura em Brasília. É verdade.

Preciso telefonar para a mãe dele, por quem tenho muita consideração. Quando o moço terminou o namoro com a filhinha, ela me telefonou e nós duas choramos no telefone. Agora vamos chorar novamente. Eu nem sei o que vou dizer. Penso na Danuza Leão, que em seu livro Quase tudo registrou uma frase inesquecível a propósito da morte de seu filho: "É contra todas as leis da natureza que um filho morra antes da mãe".

Minha mãe nunca diz que alguém morreu. Ela diz: "foi transferido à glória". Acho que ela está certa. Pois a morte transforma a pessoa comum que somos todos nós em entes extraordinários. É como se, inconscientemente, entendêssemos que a pessoa foi "promovida", embora não saibamos a quê, pois passamos a nos referir ao falecido como alguém muito especial, contamos histórias a seu respeito, revivemos os momentos compartilhados, enfatizamos a relação privilegiada que mantínhamos com ele. E, inevitavelmente, pensamos no nosso próprio destino.

Desculpem os parágrafos desencontrados, mas eu estou realmente muito transtornada. Amanhã, ao desembarcar na Waterloo Station, terei que contar a verdade à filhinha.



Escrito por Teresa Abreu às 22h07
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Deprimida

Eu vi. Graças à assinatura da UOL, com a qual mantenho este blog, pude assistir à íntegra do debate dos presidenciáveis. Que tristeza! Que vontade de sumir, desaparecer no dia 29 para não ter que participar dessa tragédia que virou a sucessão presidencial no nosso país.

A única constatação minha é a de que quem pretendia votar no Lula mantém o voto, quem pretendia votar no Alckmin também mantém o voto, e quem não sabia o que fazer do seu voto continua sem sabê-lo.

Sábado passado saí para jantar com JP. Conversa vai, conversa vem, surgiu o assunto eleições no Brasil. Aí ele me perguntou: "você está passando mal?", porque meus olhos se encheram de lágrimas. E ainda agora, quando escrevo este post, me sobe um nó na garganta.

Como já disse aqui, em outro post, meu pai era tão patriota que nunca bebia cola-cola, só guaraná. Ele foi simpatizante do Partidão, mas, por motivos que estão registrados nos livros de História do Brasil, ficou grande parte da sua vida sem votar. Se fosse vivo, teria votado no PT, como eu sempre votei.

Hoje, votar no Lula é legitimar a corrupção do PT. Os caras vão dizer: "ela sabe que nós roubamos e votou na gente, então vamos continuar roubando". Votar no Alckmin é legitimar a corrupção do PSDB. Os caras vão dizer: "ela agora sabe que nós roubávamos e votou na gente, então vamos voltar a roubar".

Porque a única diferença é que agora a imprensa conta a corrupção do atual governo, enquanto o Lula se encarrega de contar a corrupção daquele outro. E nenhum dos candidatos tem palavras para negar as acusações.

Valei-nos, Deus.



Escrito por Teresa Abreu às 16h02
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Oh, my God!

Hoje é dia de apresentação única em Paris dos rapazes do Gotan Project,  iluminado trio de músicos que deu roupagem nova ao tango com a música eletrônica. Um fenômeno!

Eles são um argentino, um suíço e um francês. O resultado? Tem que ver para crer. 

Meu ingresso está comprado há meses.

The day after

Foi a primeira vez que eu vi. Ao invés de cambistas oferecendo ingressos na porta do teatro (l'Olympia), havia pessoas com cartazes anunciando: "Compro ingresso!" Agora, em Paris, só em 4 de abril de 2007!

Na platéia, tão multinacional como o palco, havia, além dos franceses, orientais (falo assim porque não sei distinguir um japonês de um coreano ou vietnamita ou chinês), italianos, argentinos (lóóógico!), gente falando em inglês, e brasileiros... é, eu não era a única da nação verde-amarela.

Gotan Project é extra-terrestre. O clip de último CD, Lunático, está no link do primeiro parágrafo. Veja outro aqui.



Escrito por Teresa Abreu às 12h18
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Comentando o comentário

Frederico escreveu: "Nossa! Você precisa estudar a história colonial desses países, notadamente a dos EUA, para aprender a não estabelecer comparações tão incomparáveis. Quanto a herança colonial do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda (e seu Raízes do Brasil) tem muito a nos dizer.Estude-o!"

Encomendei pela Internet e estou aguardando o envio da nova edição de Raízes do Brasil, cujo lançamento está previsto para o dia 16 de outubro.

Insisto, todavia, no tema do post que gerou o comentário: o povo brasileiro precisa de "estudo". Para avançar, é preciso entender o passado e romper com ele. E esse discernimento só se alcança por intermédio da educação.

O resultado das urnas - Maluf, Clodovil... - não deixa dúvidas.

Porém... clique aqui e veja o preço do livro.

A versão francesa (Racines du Brésil) sai por 6,90 Euros (R$ 19,00). Eu considero isso um escândalo.



Escrito por Teresa Abreu às 05h42
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Meu perfil
Moro na França, onde trabalho para o Governo brasileiro. Gosto de livros, arte e cultura. Sou jornalista, escritora, fotógrafa e especialista em Relações Internacionais

 

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